top of page

Quanto custa um imóvel de leilão além do lance?

Foto do escritor: Ananda Fernandes
Ananda Fernandes
há 11 minutos
5 min de leitura

O imóvel está anunciado por R$ 400 mil, enquanto unidades semelhantes parecem valer R$ 600 mil. À primeira vista, a diferença chama atenção. Mas, antes de considerar que encontrou uma boa oportunidade, você precisa responder: quanto será necessário desembolsar até esse imóvel estar disponível para o seu objetivo?


Além do lance, a conta pode incluir comissão do leiloeiro, impostos, registro, honorários, regularização, obtenção da posse, reforma e despesas durante o período de manutenção do imóvel.


Esses valores variam conforme a modalidade da aquisição, as condições do imóvel e as responsabilidades juridicamente atribuídas ao comprador. Por isso, não existe um percentual único que possa ser acrescentado ao lance e usado como resposta para qualquer operação.


O ponto de partida é organizar a conta antes de comprometer o capital.


Quais despesas entram na aquisição?


Algumas despesas podem ser identificadas com antecedência. Outras dependem de investigação e estimativas. A análise precisa distinguir essas duas situações: o que já sabemos que será pago e o que ainda exige apuração.


Comissão do leiloeiro


Quando prevista, a comissão deve ser considerada separadamente do lance. O percentual e as condições de pagamento precisam ser conferidos no edital.


Para visualizar o impacto: se uma operação estabelecer comissão de 5% sobre um lance de R$ 400 mil, serão R$ 20 mil adicionais. Esse dinheiro precisa estar disponível conforme o prazo de pagamento exigido.


Também é necessário verificar quais despesas podem ser financiadas e quais precisam ser pagas com recursos próprios. A possibilidade de financiar a aquisição não significa que todos os gastos da operação estarão incluídos.


ITBI, registro e documentação


A transferência do imóvel, seja através de leilões ou da compra e venda tradicional, envolve despesas tributárias e registrais que precisam entrar no orçamento.


No caso do ITBI, é necessário verificar a legislação do município e os critérios aplicáveis à aquisição. Já os emolumentos cartorários dependem dos atos necessários e da tabela vigente no estado.


A documentação também varia conforme a modalidade: uma aquisição judicial e uma compra extrajudicial não percorrem necessariamente o mesmo caminho. Por isso, acrescentar uma verba genérica para “escritura e cartório”, sem identificar os atos que serão praticados, pode distorcer a estimativa.


Honorários e serviços contratados


Os honorários devem ser avaliados junto com o escopo do trabalho.


A proposta contempla apenas a análise prévia? Inclui acompanhamento do leilão? Abrange registro, regularização e atuação para obtenção da posse? Há situações que exigirão contratação adicional?


Essas respostas permitem entender o custo do serviço e comparar propostas com mais clareza. Dois valores diferentes podem corresponder a entregas bastante distintas.


Dívidas do imóvel: o que precisa ser esclarecido antes do lance?


Débitos de condomínio, IPTU e outras pendências merecem atenção específica. Identificar uma dívida é apenas uma etapa: também é necessário analisar quem responde por ela, qual período está sendo cobrado e qual tratamento jurídico se aplica à aquisição.


Não é adequado partir da ideia de que todo débito será do comprador. Também não é prudente presumir que nenhum poderá afetar a operação.


O edital precisa ser confrontado com a legislação e a jurisprudência. Em matéria tributária, por exemplo, o STJ fixou no Tema 1.134 que a previsão editalícia não basta para transferir ao arrematante os débitos tributários anteriores à alienação abrangidos pela tese. A aplicação exige atenção ao contexto da aquisição e à modulação dos efeitos do julgamento. STJ — Tema 1.134


Explico: uma cobrança pode aparecer e precisar ser enfrentada mesmo quando existe fundamento para contestá-la. A análise deve considerar tanto a responsabilidade jurídica quanto as providências necessárias para resolver a pendência.


Isso é diferente de simplesmente lançar todas as dívidas na planilha como obrigações definitivas do comprador.


Quais custos podem aparecer depois da arrematação?


O lance encerra a disputa, mas a aquisição ainda pode exigir trabalho e recursos.


Obtenção da posse


Se o imóvel estiver ocupado, será necessário avaliar a situação da ocupação e os caminhos possíveis para obter a posse.


Podem existir despesas com negociação, medidas judiciais e outras providências, conforme o caso. O prazo também precisa ser considerado. Não é responsável montar a operação supondo que a saída será imediata ou que uma negociação amigável necessariamente terá sucesso.


Regularização


Pendências documentais, registrais ou relacionadas à situação física do imóvel podem exigir providências específicas.


Antes do lance, é importante identificar o que já pode ser verificado, quais documentos estão faltando e que impacto essas lacunas têm na decisão. Uma informação ausente não deve ser tratada automaticamente como uma situação regular.


Reforma e manutenção


O imóvel pode precisar de reparos para ser utilizado, vendido ou alugado. Quando não é possível conhecer integralmente seu estado de conservação, a estimativa deve reconhecer essa limitação.


Também entram na análise as despesas durante o período em que ele permanecer sob responsabilidade do adquirente, como condomínio, tributos e manutenção, observadas as particularidades do caso.


Quem pretende alugar precisa considerar que a receita pode começar depois do previsto. Quem pretende revender deve avaliar o custo de manter o imóvel até a venda.


Um exemplo de quanto a conta pode mudar


Imagine uma aquisição com lance de R$ 400 mil. Para fins exclusivamente ilustrativos, considere o seguinte orçamento:


Componente

Valor hipotético

Lance

R$ 400.000

Comissão do leiloeiro, supondo previsão de 5%

R$ 20.000

ITBI, registro e documentação

R$ 18.000

Assessoria, conforme escopo contratado

R$ 20.000

Providências para regularização e posse

R$ 12.000

Reforma

R$ 35.000

Despesas de manutenção até o uso ou a saída

R$ 10.000

Subtotal estimado

R$ 515.000

Reserva para imprevistos

R$ 15.000

Capital planejado para a operação

R$ 530.000


Os valores são fictícios e não representam tabela de preços, orçamento profissional ou percentuais aplicáveis a qualquer imóvel. A reserva é capital separado para eventual necessidade; não é uma despesa necessariamente realizada.


Nesse exemplo, o lance de R$ 400 mil exige um planejamento de R$ 530 mil. Se o investidor dispõe de R$ 500 mil para o projeto inteiro, a diferença precisa ser resolvida antes de participar.


E há outro cuidado: se a intenção for vender por R$ 600 mil, a diferença para o orçamento não pode ser chamada automaticamente de lucro líquido. Ainda será necessário considerar, entre outros fatores, as despesas da venda, a tributação aplicável e o preço efetivamente obtido.


O tempo também pesa no investimento


Uma operação que exige seis meses de manutenção tem uma conta diferente daquela que exige dezoito.


O prazo pode ampliar despesas e adiar o recebimento de aluguel ou do valor da revenda. Além disso, mantém recursos comprometidos por mais tempo.


Por isso, prefiro que a análise trabalhe com cenários: o que acontece se o imóvel ficar disponível no prazo estimado? E se houver atraso? O investidor consegue sustentar as despesas sem depender de uma venda rápida?


A compra precisa fazer sentido também diante de um cenário menos favorável que o inicialmente esperado.


Como essa conta ajuda a definir o limite de lance?


O limite deve considerar o orçamento total e o objetivo da aquisição.


Se você tem determinado capital disponível, uma parte pode precisar ser reservada para despesas de aquisição, providências posteriores e imprevistos. Esse recurso não está livre para ser utilizado na disputa.


Para revenda, também é necessário avaliar o preço de saída e a margem pretendida. Para locação, a análise envolve a renda possível e os custos para disponibilizar o imóvel. Para uso próprio, entram as condições necessárias para morar e a capacidade de suportar os prazos.


O limite de lance precisa ser definido antes do leilão. A disputa não altera o orçamento nem elimina as despesas que virão depois.


O desconto precisa fazer sentido na conta completa


Um imóvel pode continuar sendo interessante depois de todos esses custos. Também pode deixar de ser adequado ao seu projeto.


No meu entendimento, o valor da análise está justamente em permitir essa distinção antes da compra: entender o que está sendo adquirido, quais recursos serão necessários e que riscos permanecem.


Antes de dar um lance, procure responder a três perguntas: quanto preciso desembolsar, em quais momentos e o que pode alterar essa previsão?


Se você está avaliando uma oportunidade, a assessoria jurídica e estratégica em leilões pode ajudar a examinar essas questões no contexto do imóvel e do seu objetivo.


Por Ananda Fernandes - Advogada especialista em leilões e regularização imobiliária e planejamento patrimonial e sucessório


 
 
 

Comentários


Ananda Fernandes - Advocacia e Consultoria em Leilões

bottom of page